Âmago ajuda hotelaria a poupar energia
Artigo do semanário barlavento de 19 de outubro de 2017: como a Âmago chegou aos contratos de desempenho energético, que poupam aos hotéis milhares de euros.
Empresa criada em 2008 tem vindo a crescer na área das soluções eficientes para a poupança energética. Sistemas que permitem aos empresários hoteleiros poupar milhares de euros anualmente.
Eficiência energética é uma expressão que começou a estar nas contas de quem quer poupar muitos euros ao fim do mês. A Âmago é uma empresa, localizada em Portimão, que ajuda a encontrar soluções, instalando sistemas ou medidas com base nesse objetivo. O principal foco a nível de clientes são os grandes edifícios, em particular os da hotelaria, e é nesta área que a empresa, administrada por João Raposo, está a dar cartas.
«Estamos muito focados nos edifícios de serviços, hotéis, centros comerciais, escolas, hospitais, e não tanto na habitação, embora também façamos certificação energética para particulares. A nossa grande especialidade são os imóveis de grande dimensão», contou ao barlavento João Raposo, administrador e fundador da Âmago.
Aluno da primeira geração do curso do Instituto Politécnico de Faro que, na altura, se chamava Engenharia Térmica, o empresário conta com uma equipa de sete técnicos, engenheiros e arquiteto, que encontrou uma nova forma de crescer no mercado, ao dedicar-se sobretudo às necessidades da indústria hoteleira.
O negócio nasceu em 2008, muito centrado, na altura, na novidade da certificação energética. A crise, que a partir desse ano afetou a construção civil, levou a Âmago a diversificar o seu core business.
Cada vez que a equipa emitia um certificado energético, apoiado por um relatório detalhado com medidas para tornar o edifício mais eficiente, João Raposo notava que os clientes ficavam com o papel, que era, em alguns casos, apenas uma formalidade necessária para uma escritura ou para um financiamento. Na prática, pouco ou nada faziam para pôr as sugestões em prática. «No fundo, não estávamos a implementar eficiência energética, nem a conseguir poupanças», contou.
João Raposo resolveu, então, apostar num modelo de negócio para edifícios de maior dimensão que, apesar de ser novidade em Portugal nessa altura, já não o era nos Estados Unidos da América nem no resto da Europa.
«Apresentávamos um relatório, resultado de uma auditoria energética, que estimava que um investimento na ordem dos 300 mil euros levaria a uma poupança de 100 mil euros por ano. Estaria pago em três anos», exemplificou.
O problema, acentuado pela crise, é que o cliente duvidava, muitas vezes, de que o investimento que teria de fazer se traduzisse, na prática, na amortização e na poupança apresentadas pela empresa. «Nós temos tanta confiança e segurança de que estas estimativas são corretas que estou disposto a arranjar o dinheiro e a fazer as obras. O cliente vai pagando em função das poupanças que daí resultam», garantiu o fundador da Âmago. Este processo dá pelo nome de contrato de desempenho energético.
Desses 100 mil euros, o cliente recebe logo à cabeça 10%, começando a poupar sem gastar nada.
«Faturamos 90% e, em vez de três anos, vai ser um período de quatro, cinco ou sete, o que nos permitirá rentabilizar o investimento, contando com uma margem para nós e com o facto de termos de pagar os juros do financiamento», revelou o empresário. Ou seja, o cliente não corre riscos, obtém um edifício com eficiência energética feito por uma equipa especialista e tem a garantia de resultados.
O primeiro contrato de desempenho energético da Âmago foi implementado no Pestana Dom João II Beach Resort, em Alvor, que, faturado desde 2014, consegue poupanças na ordem dos 25%. Foi o primeiro contrato no Algarve e o segundo em todo o país.
O grupo hoteleiro já apostou em contratos de desempenho energético também no Pestana Viking Beach & Spa Resort, em Armação de Pêra, onde a empresa está a conseguir reduções de energia que rondam os 40 a 45%.
O terceiro contrato foi firmado com o Pestana Alvor Park, a primeira unidade onde foram montados também painéis fotovoltaicos, e está em vista a implementação de mais contratos. Foi com o primeiro contrato de desempenho energético que a empresa concorreu ao Fundo de Apoio à Inovação (FAI) e venceu. «Fomos os que mostrámos que conseguíamos obter mais poupanças e, por isso, ganhámos o direito de nos emprestarem dinheiro: 70% do total que precisávamos. Ou seja, de 388 mil euros, recebemos 270 mil. Esta aprovação ofereceu-nos um ano de carência e três anos para devolver o dinheiro emprestado, sem juros», disse.
O foco na hotelaria é interessante, sendo esta uma indústria exposta a muitos desafios, como a sazonalidade. «Não podem desligar tudo e manter o hotel em funcionamento. Há unidades que gastam muita energia nos meses de inverno em aquecimento, porque têm de manter as zonas comuns aquecidas, mesmo quando têm dez ou quinze por cento de ocupação. E custa o mesmo com altas ou baixas receitas.»
Ao contrário do que acontecia num passado recente, a instalação de sistemas eficientes de aquecimento, ventilação e ar condicionado (AVAC) é hoje um ramo especializado da engenharia, visto que o conforto térmico dos edifícios é determinante para a poupança de energia. Esta é também uma vertente que a Âmago tem desenvolvido.
«Nos projetos de edifícios novos tentamos reduzir os consumos com a escolha dos materiais, colaborando com a arquitetura, jogando, por exemplo, com as janelas e os isolamentos térmicos. Depois de otimizarmos o edifício a nível térmico, vamos complementar as necessidades de climatização ou de ventilação», tirando partido das energias renováveis sempre que possível, acrescentou. «O mínimo legal para a certificação energética de um edifício novo é B-. No entanto, tentamos que seja sempre o mais elevado possível, desde que haja vontade do arquiteto e do dono de obra.»
Monitorizar é essencial
Ao implementar contratos de desempenho energético, a Âmago tem de garantir que as poupanças são reais, e por isso a monitorização das medidas e dos sistemas de eficiência energética é fundamental. «Analisamos os consumos diários ou, às vezes, de hora a hora. Tudo para que não haja anomalias. Se houver uma fuga de água ou um consumo anormal, somos alertados por email e SMS. Sempre que algum dos valores foge demasiado ao normal, o sistema avisa», detalhou o responsável pela Âmago.
João Raposo consegue ver num computador, em tempo real, como está a funcionar o sistema em determinado local. Tomando como exemplo o Pestana Viking, em Armação de Pêra, ou o Pestana Dom João II, em Alvor, o empresário mostrou ao barlavento, no escritório em Portimão, que basta carregar num botão para ligar a climatização de um espaço. É a gestão técnica centralizada.
«Os hotéis grandes costumam ter um sistema central de arrefecimento. Por exemplo, a água sai a sete graus e volta a doze. A razão das elevadas poupanças que estamos a ter no Viking é que estas temperaturas oscilam. Os aparelhos de ar condicionado, ao fazerem frio no interior, deitam fora calor para o exterior. Mas podemos aproveitar esse calor, por exemplo, para produzir água quente sanitária», explicou.
O hotel tem quatro depósitos com capacidade para cinco mil litros de água cada, e consegue aquecê-la de forma quase gratuita. «As caldeiras a gasóleo, no verão, estão paradas. Antes trabalhavam 12 horas por dia; agora estão ligadas vinte minutos. É uma redução de custos brutal», justificou.
Esta gestão de energia passou por um período de muita afinação e de avaliação das necessidades do hotel, e este é um tipo de trabalho que nem todas as empresas «da nossa especialidade sabem fazer ou têm segurança suficiente» para fazer.
Foi também essencial mudar alguns comportamentos para chegar à eficiência desejada, sem alterar a qualidade do serviço aos clientes. «Nos edifícios há horas em que a energia é mais cara. Tipicamente, das 9h00 às 12h30. As bombas das piscinas, por exemplo, no verão têm de trabalhar o dia todo, mas no inverno podem ser desligadas nessas horas. Houve um dia em que alguém começou a gastar energia num contador, fomos alertados pelo sistema e fomos ver o que se passava. Eram os mergulhadores, a usar a máquina para encher as garrafas de mergulho. Explicámos que, se não houvesse inconveniente, deviam fazer aquela tarefa à tarde, por causa dos custos de energia.»
Âmago criou o software GEMAX para a manutenção dos hotéis
Um hotel costuma ter dezenas ou centenas de quartos, espaços diversos e muitos equipamentos que precisam de manutenção para prevenir gastos inconvenientes. O GEMAX, criado pela Âmago, responde à necessidade que as empresas do setor sentem quanto ao plano de manutenção dos imóveis e ao registo de ocorrências.
«Para obter um certificado energético é obrigatório ter um plano de manutenção, corretiva e preventiva, tal como o registo de ocorrências, onde deve estar todo o histórico das intervenções nos equipamentos de climatização, que a legislação obriga. Pode ser uma folha de papel, um documento Word, mas poucos o fazem», resumiu. Em 2010, o empresário analisou os programas de manutenção que existiam no mercado e concluiu que tinham sido desenvolvidos para fábricas ou para os grandes navios da marinha mercante, e que eram muito complicados e pesados.
Lançou mãos à obra e desenvolveu um conceito simples e versátil, com o Eng. Tiago Pinto, que trabalha na Âmago, e uma equipa de programadores.
Daí resultou um programa instalado em todas as Pousadas de Portugal do grupo Pestana em 2012, e alargado às outras unidades do grupo em Portugal continental e nas ilhas em maio de 2016: cerca de 65 unidades, um grande passo para a empresa de Portimão.
«Esse é outro pilar que permite atacar um dos aspetos da eficiência energética, que é a manutenção preventiva dos equipamentos. Se os filtros forem limpos periodicamente, as correias e as lubrificações monitorizadas, as máquinas vão funcionar melhor, consumir menos energia e ter menos avarias», argumentou João Raposo.
Em qualquer altura, os técnicos de manutenção de um hotel «podem saber que intervenções se fizeram naquela máquina, naquele quarto ou na caldeira», e quando. Na prática, qualquer pessoa que trabalhe no hotel pode fazer um pedido de trabalho ou comunicar uma avaria. É enviada uma SMS ou uma notificação ao técnico, que gere as tarefas em função da urgência. «Uma pessoa insere no programa que no quarto 203 o ar condicionado não funciona. O técnico de manutenção vai arranjar e, no final, regista no sistema o que fez. Gere as tarefas diárias, e os espaços passam a ter um histórico de intervenções, o que permite identificar um problema recorrente», detalhou.
O programa está em funcionamento e em contínuo desenvolvimento, e está a ser preparado para as aplicações móveis.
Portimonenses concorrem com os grandes da energia
«Somos a única empresa no Algarve completamente dedicada à eficiência energética. Podíamos fazer outro tipo de projetos ligados à engenharia, mas não queremos. Neste momento, prestamos três serviços diferenciados. Há mais empresas no país, mas, a nível de serviços de energia nestes moldes, há apenas 41 empresas registadas na Direção-Geral de Energia», referiu o empresário. Concorrem lado a lado com grandes insígnias como a EDP e a Galp. «Somos pequenos, muito competitivos, conseguimos obter mais poupanças do que os outros e atingimos as poupanças a que nos propomos. Essa é a nossa grande diferença», afirmou o fundador da empresa.
Empresa algarvia chega além-fronteiras
O grupo Pestana é o cliente da empresa portimonense com maior número de edifícios a requisitar os serviços de eficiência energética. No entanto, a Âmago tem conquistado, nos seus nove anos de história, diversos projetos. Na cidade onde está sediada, a equipa trabalhou na requalificação do edifício Mabor, perto da zona ribeirinha, para o qual fez os projetos térmicos em parceria com outra empresa da área da engenharia civil e da arquitetura. Nesse caso, foi preciso aproveitar o imóvel existente para implementar as medidas de eficiência energética. «Fez-se quase tudo, desde mudar os envidraçados à colocação de sistemas solares», revelou João Raposo.
No mesmo concelho, a empresa fez o certificado energético do Hotel Pestana Race, junto ao Autódromo Internacional do Algarve, e «alguns trabalhos com a cadeia Hotel Júpiter, que tem unidades em Lisboa e em Portimão». No resto do país — Lisboa, Viseu, Bragança, a Madeira — e em São Tomé e Príncipe, conta com medidas de eficiência energética em grupos hoteleiros, edifícios de escritórios, escolas privadas, supermercados e hipermercados. «Há outras cadeias que ainda não estão muito sensíveis a este assunto, pois trabalham com margens mais apertadas», explicou. Já as entidades públicas, como as câmaras municipais, deparam-se com limitações legais que tornam complicado atuar com estes modelos de contrato de desempenho energético. No horizonte estão projetos no sul de Espanha.
Investir para poupar em casa
A maioria das dicas de poupança de energia em casa já são conhecidas, mas nunca é demais voltar a algumas. João Raposo contou que os contratos que a empresa desenvolve são mais adaptados à hotelaria, aos serviços e aos edifícios de grande dimensão do que aos particulares. «Conseguimos contratos de desempenho energético de cinco anos, até porque mais do que isso torna o peso dos juros mais elevado. Em casa, é difícil obter prazos semelhantes, porque depende muito do uso que as pessoas dão aos equipamentos e, como são quantidades de energia muito baixas, não se justifica para nós enquanto empresa.»
Apesar de não ser uma medida para particulares, o empresário incentiva as pessoas a investir em eficiência energética do próprio bolso, porque «a cinco ou seis anos vai compensar». «Em casa, o solar térmico ou mesmo o fotovoltaico, se houver condições, compensa, ainda que seja só de 1500 watts. O autoconsumo tem de ser muito cuidado, porque, regra geral, não estamos em casa durante o dia», alertou. Ou seja, há que ver primeiro o consumo dos equipamentos que estão sempre ligados (o frigorífico, a arca congeladora). «Às vezes, bastam 200 ou 300 watts, que é um painel ou dois, e já equilibra. Mais pode ser um desperdício, porque depois não se consegue vender a energia ou, se se conseguir, é a tarifas muito baixas, de quatro ou cinco cêntimos.» Numa casa maior, com bombas de piscina e sistema de rega, um investimento maior no fotovoltaico compensa.
Outros exemplos: lâmpadas LED nas divisões onde a luz está ligada mais tempo (a cozinha, a sala), redutores de caudal nas torneiras, e a troca de equipamentos com mais de dez anos. «Fiz as contas em minha casa e vi que, se trocasse o frigorífico, poupava cem euros por ano. Um novo, de 700 euros, está pago em sete anos, e, se for bem estimado, dura muito tempo. Na minha opinião, hoje já compensa trocar um frigorífico com dez anos», concluiu.
A certificação energética só está no terreno há oito anos
A reviravolta nesta área começou em 2006, quando foi criada a legislação da certificação energética, que só começou a ser aplicada nos edifícios três anos depois. Em agosto de 2013 a legislação foi revista, e a nova entrou em vigor em janeiro do ano seguinte. O tema conta hoje com um decreto-lei revisto quatro vezes, quase uma dezena de portarias, doze despachos e quatro ou cinco erratas, explicou João Raposo.
E quando o assunto é a poupança nos custos de energia, toca-se nas ajudas do Estado, nos incentivos e nos subsídios. «Existe o Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos (POSEUR)», com fundos europeus a que as empresas, o Estado e as instituições particulares de solidariedade social (IPSS) se podem candidatar — uma medida que teve atrasos, porque «a União Europeia sentiu necessidade de corrigir alguns aspetos da legislação energética, por não estarem de acordo com o espírito da diretiva europeia».
Artigo publicado no semanário regional barlavento a 19 de outubro de 2017.

O artigo no barlavento, página 14.

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